“O Reino
dos Céus é comparado ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas
de farinha e que faz fermentar toda a massa” (Mt 13,33).
“Guardai-vos com cuidado do fermento dos
fariseus e saduceus. Então entenderam que não dissera que se guardassem do
fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus” (Mt 16,6.12).
O
fermento biológico se chama Saccharomyces cerevisiae e é um tipo de FUNGO que exerce a função de LEVEDURA
(do latim levare = crescer, fazer crescer) na massa do
pão. Mas por que e como o fermento faz a massa
crescer?
O grande cientista Louis Pasteur disse que a "fermentação
é vida sem oxigênio".
A principal função do fermento é produzir CO2 (gás carbônico)
para expandir a massa. Não é um processo simples, são varias etapas e reações
que se sucedem. Resumidamente, a levedura através de suas enzimas invertase e zimase, em contato com os
açucares contidos na massa, provocam um processo chamado glicólise, gerando o ácido pirúvico e
liberando etanol e um
gás (dióxido de carbono) que vai provocar "bolhas" na massa,
aumentando assim seu volume. Tudo isso acontece silenciosamente.
Portanto, a fermentação tem a capacidade de aumentar o
volume, criar espaço onde não havia espaço. Esse fungo microscópico é capaz de
TRANSFORMAR a massa! Por isso Jesus nos apresenta
dois tipos de fermentos: o fermento
do Reino dos Céus e o fermento dos fariseus.
Ambos são capazes de transformar. Um transforma a massa para Deus e nos
aproxima da vida eterna e o outro transforma a massa para a hipocrisia e nos
afasta de Deus.
O que impressiona e assusta na fermentação é o fato do
momento decisivo ser o da "mistura", pois basta misturar o fermento
na massa e ele faz o resto. Essa regra vale para o fermento do Reino de Deus,
mas infelizmente também vale para o fermento do mundo. A mistura define o futuro da massa. Assim também as opções
que fazemos com nosso livre arbítrio decidem o futuro de nossas vidas. Por isso
Jesus nos recomenda cuidado.
Vivemos tempos difíceis, onde os meios de comunicação
fermentam nas famílias, nas crianças e nos jovens uma mentalidade e uma cultura
de morte totalmente contrária aos valores do Evangelho. Isso é muito
grave, pois após a mistura iniciam-se silenciosamente as reações químicas que
nos levam a conceber um mundo sem Deus. O gás
produzido pelo fermento do mundo é o "gás do relativismo", onde
"tudo pode" e "tudo depende". Assim cresce o número de
batizados que se afastam da Igreja ou que passam a encará-la como uma mera e
eventual possibilidade religiosa.
Existem alguns programas televisivos que concentram
grande quantidade desse "fermento do relativismo": são as novelas e
os realitys shows . Através desses programas, somos
levedados e fermentados com uma mentalidade contrária ao Evangelho. Muitos defendem a ideia de que o cristão deve ser capaz de
assistir a tudo sem se deixar levar pela mensagem do programa. Quem defende
essa postura ignora o silencioso poder da fermentação!

O próprio Jesus nos ensina usando a mesma comparação
do fermento. Precisamos do FERMENTO DO REINO para levedar e transformar a
sociedade. Na Carta aos Romanos temos a receita infalível :
"Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas
misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo,
agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este
mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais
discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é
perfeito" (Rm 12,1-2)
A receita é justamente oferecer a Deus nossa própria
vida como se fosse uma "massa de pão" a fim de que o fermento do
Reino dos Céus nos transforme. Não podemos
transformar ninguém, mas podemos e devemos nos deixar transformar pelo
Evangelho! Nós somos a massa! Ainda que todos digam não ao projeto de amor de
Deus, você pode dizer sim! A santidade está ao nosso alcance na medida em que
permitimos que o Espírito Santo nos santifique, nos transforme e nos faça
crescer na graça de Deus.
Assim como o gás carbônico faz crescer a massa do pão,
o Espírito de Deus nos faz crescer nas virtudes, na vida sacramental, na
oração, nas obras de caridades, etc. Veja que não é mérito da massa, é obra das
enzimas do fermento. Por isso, não devemos nos orgulhar de nossas boas obras,
elas são resultado da graça de Deus em nós. No entanto, devemos nos preocupar se a massa não estiver crescendo,
se não estivermos progredindo na fé ou se nossa vida de oração estiver
minguando... Pode ser que o fermento de
Deus tenha acabado em nossas vidas. E
quando isso acontece é hora de voltarmos à Palavra de Deus, de voltarmos à
Igreja, de procurarmos o sacerdote e fazermos uma boa confissão.
É como se fosse aquela brincadeira de criança chamada
"cabo de guerra": ou você puxa ou é puxado! Não existe meio termo.
Quem tenta ficar parado, é arrastado e cai num segundo. Portanto, ou você está crescendo na fé ou está minguando e
crescendo na vida de pecado. Ou você "puxa para Deus" ou é
violentamente "puxado para o Inferno". Alguns dirão "que
exagero!" Infelizmente quem pensa assim já está sob o efeito das enzimas
do relativismo que fazem crescer o orgulho, a autossuficiência e uma pretensa
ideia de liberdade e maturidade.
Mas Jesus disse: "O Reino dos Céus é comparado ao fermento que uma mulher toma
e mistura em três medidas de farinha e que faz fermentar toda a massa" (Mt 13,33).
Benditas mãos desta mulher! Bendita seja aquela que tomou
coragem e misturou o fermento na massa! Essa
mulher é a Virgem Maria! Ela permitiu por primeiro que sua própria vida
fosse fermentada pela Palavra Eterna. Foi em seu ventre que Jesus, o fermento
do Pai, cresceu, transformou-se e lhe transformou. E é através dela, que nós,
seus filhos, devemos aprender a romper com o mundo e a optarmos radicalmente pela
vontade de Deus: "Faça em mim segundo a vossa palavra" (Lc
1,38).
É por isso que ela se apressa em misturar esse mesmo
fermento em nossas vidas. E isso acontece quando nos consagramos à Virgem
Maria. Com ela tudo começa a mudar silenciosamente, como silenciosa foi sua vida. No
silêncio de Maria foi fermentado o mais puro amor e a mais firme fé e
esperança, de tal forma que aos pés da Cruz podemos contemplar o quanto Deus
foi capaz de torná-la grande!
Não se conformar com este mundo significa guardar-se
do fermento do pecado. Significa não permitir que misturem em nós aquilo que
não pertence à mentalidade do Evangelho e aos ensinamentos da Igreja Católica.
No Sermão da Montanha encontramos uma palavra muito dura de Jesus: "não
atireis aos porcos as vossas pérolas" (Mt 7,6). Isso nos lembra
uma dito popular que diz: quem
com porcos se mistura, farelo come. O filho pródigo desejou comer a lavagem
dos porcos (Cf Lc 15,16), mas nem isso lhe deram, por isso decidiu voltar à
casa do Pai.
Peçamos a Virgem Maria, aquela que é a "cheia
de graça" (Cf 1,28), que nos ajude a vivermos uma vida em
Deus, sendo fermentados pela graça de Deus, e a progredirmos sempre na fé. Como
seria bom que se atingíssemos, como diz São Paulo, "o estado de homem
feito, a estatura da maturidade de Cristo" (Cf Ef 4,13), a fim de
que "pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos,
naquele que é a Cabeça, Cristo" (Ef 4,15).
Nossa Senhora de Caná, rogai por nós, que sempre
precisamos de Vós!
Vinícius da Silva Paiva
Comunidade Católica Servos de Caná